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Crônicas

 

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SUPERAÇÃO
Autor: Ailton Salvador Lopes Gomes
Ano: 2008
 
Quando jovem eu bebia, fumava e levava uma vida sedentária. Aos 30, nasceu meu primeiro filho, logo veio o segundo, e resolvi dar uma guinada para poder vê-los crescer. Parei de fumar e comecei a correr.
O primeiro desafio foi uma corrida de 6km. Depois vieram as de 10 Km, São Silvestre, meia maratona, e as maratonas. Até achar tudo pouco. O próximo desafio então foi o triatlhon.
Aos 42 anos de idade, meu primeiro triathlon foi em Santos, com muita chuva e mar agitado. Depois vieram o olímpico, e as provas mais longas e a vontade de querer o mais difícil, o Ironman.
Em 2003, fui para Floripa com minha mulher Elizabeth , meus filhos, Gabriel e Matheus, que também viraram triatletas, minha mãe (que nunca conseguiu entender porque seu filho fazia uma coisa como essa), minha irmã (que achava que depois de velho eu tinha ficado louco). No dia da prova, apesar de todo o planejamento, cometi aqueles erros de principiante, levantei às 4 horas da manhã para comer macarrão e, como o mar estava agitado, tive que para duas vezes na natação para vomitar. E, ainda perdi meu relógio no mar. Quando pedalava próximo da universidade errei uma curva e trombei com um carro. Levantei e vi que não tinha nada quebrado comigo e com a bike. Na maratona um cachorro quase me mordeu. Anoiteceu. Debaixo daquela iluminação amarela, só me passava pela mente que eu estava fazendo o que mais gostava. A linha de chegada foi de uma emoção que não dá para medir com palavras. Joguei meu boné para cima e fiz o tempo de 12:37’hs.
Em 2004, quis repetir a dose, mas devido a algumas dificuldades profissionais não pude treinar direito. Fiz a prova tranqüilo em 13:06’ hs.
No ano de 2005 eu pretendia buscar resultado. Estava profissionalmente mais tranqüilo, com tempo para treinar. Mas, às 4 horas da tarde de um dia de semana, quando caminhava pela calçada uma moto perdeu a direção e me atingiu a uns 60Km/h. Senti minhas pernas quebrarem, a costela e o rosto doerem, tudo sangrava. Mas, meu rosto não importava, só pensava nas pernas. Quando tentei movê-las ouvi o barulho dos ossos quebrados. Resgate, hospital, cirurgia plástica, etc. Pouco restou inteiro da esmagada tíbia da perna direita. Colocaram uma haste de 31,5cm de cumprimento, interna, presa por parafusos imensos, para fazer a função do osso. Um médico da UTI, do qual não me lembro o nome, disse que como meu caso era muito grave, teria pouca chance de voltar a andar direito e tinha muita sorte de ter escapado da amputação e da possibilidade de voltar aos esportes, nem pensar.
Vieram meses de cadeira de rodas, muletas, tutores. Busquei motivação no sonho de voltar a fazer o iron. Muita luta e exercícios. Tudo era muito difícil e parecia impossível que um dia eu conseguisse superar todas as dificuldades.
Em 2007, minha forma começou a voltar lentamente. Já conseguia correr 10Km e pedalar 60Km, mas com dor. No final do ano, no dia de Natal, pedi a Deus meu presente, queria fazer o Iron 2008. Preparei minha planilha, estudei as possibilidades, fui ao médico, e no dia 01/01/08 iniciei os treinamentos. Com a ajuda dos amigos, compreensão da família e principalmente apoio da minha esposa fui à luta. Fiz a inscrição e recebi o número de peito: 100.
Quando cheguei em Floripa, na semana da prova, tinha conseguido fazer os treinos possíveis para minha condição, e passei a semana pré-prova curtindo o ambiente: a feira, os simpósio, o jantar de massas, os amigos pedalando, a natação do mar. Fiquei maravilhado com a evolução da organização. O que já era muito bom ficou fantástico. E isso eu posso afirmar, pois pude comparar com 2003 e 2004. O iron de 2008 foi demais, tudo perfeito. Não tenho nada a criticar ou reparar, muito pelo contrário:, só tenho a elogiar a estrutura, os staffs, as alterações no percurso, etc. E isso foi muito importante para que eu me sentisse mais confiante.
Fui para a competição sentindo uma alegria profunda. Acompanhado de meus amigos da Academia Planet Sports, que vieram para torcer, a equipe Limite Team: Baca, Fabinho, Julio e Ramon, que treinaram comigo, e apoio do Diego da equipe Trilopez.
O clima e temperatura no dia da prova estavam ótimos. Tanto que fiz minha melhor natação, meu melhor ciclismo e quando corri para a maratona, nem me lembrava do acidente. Terminei a prova com 11:57hs e estabeleci meu recorde pessoal. Fiquei em 13º na categoria M50-55.
Tudo o que parecia impossível foi suplantado. Voltei ao ironmanbrasil para ficar e aprendi uma grande lição: com planejamento, treino, fé em Deus, apoio da família e amigos, qualquer dificuldade pode ser superada. Se Deus quiser 2009 estarei lá.