
| OBRIGADO"IRONMAN" |
| Autor: Ricardo Costa Val |
| Ano: 2008 |
Pela terceira vez consecutiva realizei o Iron Man Brazil em Florianópolis, ocorrido em 25 de maio de 2008. Há muito ouço, leio e reflito sobre o porque de se fazer uma competição que se inicia às 07hs00m em ponto ao lado de mais de 1200 atletas e que implica em nadar 3.8 km em mar frio, depois pedalar 180 km em duas voltas de 90 km e por fim correr um maratona, ou seja, 42,1 km subdivididos em uma volta de 21 km com aclives fortes e duas voltas de 10,5 km, nas quais existem cerca de 4 km em um trecho escuro, longe da população e desestimulante.Como atleta amador e com reduzido tempo para treinar, já que minha vida profissional é bastante desgastante, assim como a maioria de todos atletas amadores, seria lógico fazer apenas uma prova e pronto. Alias, por várias vezes pensei nisso, diga-se de passagem. No entanto, cada vez mais tenho vontade de fazer vários Iron Man. Para mim Iron Man é hoje, uma paixão. To persevere, to overcome obstacles. Sempre fui assim, seja no esporte, seja nos locais que escolhi para exercer minha profissão, particularmente no Hospital João XXIII/FHEMIG, centro de Trauma que trabalho há mais de 12 anos e que nunca, mas nunca "apaga as luzes." Mas nesta terceira incursão percebi realmente um pouquinho do que é perseverar, superar obstáculos. Mesmo tendo treinado, por motivos pessoais e profissionais, 30% a menos do que nos dois anos anteriores, iniciei o Iron Man 2008 confiante que daria para completa-lo com o tempo entre 11 a 12 hs, como nos dois eventos anteriores. E de maneira alguma menosprezei o Iron Man, pois a vida tem cada vez mais me mostrado como é importante a humildade, "ser pequeno." De cara enfrentamos um mar agitado, frio, cheio de águas vivas e com fortes correntezas, que não só faziam com que nadássemos e nadássemos sem sair do lugar, mas também que nos aglutinássemos como verdadeiros cardumes, o que me casou uma cotovelada na cara e o deslocamento do meu óculos de natação. Mas, finalmente após ter nadado mais de um km sem uma visão saí da água com 1h40m, tempo bem acima do que esperava. Surpresa maior foi ter visto que apesar disso, ainda haviam mais dois "grandes cardumes humanos" que lutavam contra este primeiro grande obstáculo da prova. Na etapa de ciclismo "os ventos sobraram ao meu favor" e completei os 180 km em cerca de 5h45m, sem dores e confiante. Percebi no entanto, que o dia, antes ensolarado e confortável mudava rapidamente, a ponto de às 16h00m estar sob um dia nublado e frio. Fiz minha segunda e última transição, ambas bem mais rápidas do que em 2006/07 e sem ter a certeza que seria benéfico, peguei meus dois manguitos para os membros superiores e iniciei minha maratona, por volta da 15h00m, quando pensei, que iria completar a prova antes das 18h com "folga". Realmente fiz os primeiros 19 km dentro do esperado, num pace de 5 min/Km e freqüência cardíaca próxima de 145 bpm, além de ultrapassar vários competidores. Tive que colocar os manguitos, entretanto, pois a temperatura tinha caído mais de 10 C durante a prova e já me sentia bastante incomodado com o frio. Contudo, meu verdadeiro Iron Man começou por volta do Km 22, quando subitamente entrei em colapso total. Minha mente me mandava parar imediatamente, comecei a chorar, meus braços doiam, sentia fome como nunca e expressivo desconforto abdominal e minhas pernas pesavam mais do que "1 tonelada" cada. Somado a isso não conseguia comer e beber nada, estava há mais de duas horas sem urinar e o frio congelava cada parte da minha pele que a roupa não cobria. Meu mundo desabou, por alguns minutos senti realmente que morreria naquela prova. Apesar de, graças a Deus, não me ver, percebi que realmente transmitia algo sério, pois não apenas os fiscais, mas também os atletas e até mesmo o público perguntava insistentemente se estava bem, que deveria parar. Lembrei-me da expressão "fascies hipocrática" expressão criada por Hipócrates para definir os doentes graves e com morte eminente. Por outro lado, e de maneira maravilhosa, conheci duas coisas que nunca ocorreram em minha vida enquanto me arrastava na prova, quase que robótica e anencefalamente. Conheci o PODER que o próximo exerce sobre nós, pois ouvi e presenciei expressões de solidariedade que me acompanharão eternamente. Dentro deste contexto, duas atitudes me emocionam muito, a de uma senhora de idade, que me disse, eu vou ficar aqui até você passar por mais duas vezes (faltavam cerca de 20 km!) e a de um atleta que disse "Ricardo, persista, pois em breve tudo passará"; o que me vez relembrar do que Jesus disse na Cruz para um homem também crucificado que acabará de se redimir perante Deus por seus erros e que é: "Veritas ipse tibi dico, hodie mecum eris in paradiso." (Lc 23:43) (Na verdade lhe digo, hoje estará comigo no paraíso). A partir daí comecei a encontrar o que definitivamente não apenas mudou minha prova, mas minha vida. Descobri que é possível enxergar que por pior que seja nossa situação, ela é infinitamente melhor do que milhões de pessoas. Lembrei de meus pacientes, de que eles dariam tudo, mas verdadeiramente tudo para poderem estar em meu lugar nem que fosse por apenas 1 segundo. Relembrei o que acabará de estudar poucos dias atrás na leitura do Latim, das lições que aprendemos por Deus: "Idcirco unus interitus est hominis et iumentorum et aequa utriuesque condicio sicut moritur homo sic et illa moriuntur similiter spirant omnia nihil habet homo iumento amplius cuncta subiacent vanitati" (Ec 3:19) ("É pelo sofrimento que o homem perceberá entretanto que após a morte ele estará na mesma condição que um jumento. Do mesmo modo verá que seu espírito não possui nada de melhor do que o do jumento e que a vaidade é uma tolice). Fui então adquirindo energia e força, me superando e pouco antes de passar pela senhora, que já me espera por mais de duas horas no frio, vi sentado aquele atleta que hora antes me dissera coisa tão linda. Perguntei ao mesmo o que houve e ele me disse: "não dá, desisto, daqui não saio." Neste momento me virei e mesmo em frangalhos lhe disse: "...A dor de um desafio pode durar um segundo, uma hora, um dia ou um ano. Porém se persistir ela passará. Mas se você desistir ela jamais passará, irá te acompanhar para o resto da sua vida..." (Lance Armstrong). Ao ouvir tal sapiência ele levantou imediatamente, enxugou os olhos e emocionado retornou sua labuta, completando-a. Por fim, ouvi ainda a senhora me disser: "Graças a Deus Ricardo, pois para Deus nada é impossível, eu sabia que conseguiria. Agora posso entrar, pois estou muito feliz." E entrou, sem que pudesse saber seu nome. Não importa, ela estará comigo para sempre e certamente nos encontraremos um dia, aonde, não sei... Corri, corri para a maior vitória da minha vida. Cheguei quase 14hs após ter iniciado esta prova tão maravilhosa. Desfaleci na chegada, acordei quase 02 horas depois no hospital do Iron Man, que estava lotado, e aonde me informaram que fui admitido falando O Pai Nosso em Latim, hipotérmico (36 C), hipotenso (PA = 90x50 mmHg) e em crise asmática que foram adequadamente tratadas. Levei um "pito" da médica, mas que me deu os parabéns e sorriu ao saber que era colega de profissão. Beijei minha medalha que estava em meu peito e se fui para casa em êxtase. Tomei banho e sai com meu amigo Felipe e sua esposa Andréa. Comemos muitas pizzas e tomamos bons vinhos. Agradeci a Deus pelo presente que me deu, conversei com minha esposa Cristina e apesar de promete-la que nunca mais farei Iron Man sei aonde estarei no último domingo de maio de 2009 às sete horas da manhã, se Deus quiser... |